ETNOPSIQUIATRIA


Foi Henri Ellenberger, da Universidade de Montreal, no Canadá, que definiu o termo Etnopsiquiatria por volta de 1965, descrevendo tratar-se do estudo das afecções mentais em função dos grupos étnicos ou culturais aos quais pertenciam os doentes. Georges Devereux, de descendência húngara indo viver nos EUA é considerado o fundador da Etnopsiquiatria. Ele era psicanalista e etnólogo voltado a pesquisas. Eu me formei em Etnopsiquiatria na Universidade de Nice, no serviço de Henri Collomb, o pai da Etnopsiquiatria Clínica. Quando voltei ao Brasil e já havíamos, eu e meus colegas, fundado a Associação Brasileira de Etnopsiquiatria, conheci num dos congressos da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) um jovem colega, retornando da Alemanha e especialista em Religião e Saúde Mental. Seu nome era Paulo Dalgalarrondo, que iniciou sua contribuição com publicações sobre o tema. Com ajuda do Paulo, nos reunimos com Maurício Knobel em Campinas, e fizemos a união entre a ABE (Associação Brasileira de Etnopsiquiatria) que eu presidia e a Associação Brasileira de Psiquiatria Social que ele liderava. O objetivo era unir forças para uma disciplina ainda em expansão no planeta. Com o desenvolvimento da Etnopsiquiatria, seu ramo internacional, a Sessão de Psiquiatria Transcultural na Associação Mundial de Psiquiatria reunia colegas interessados nesse tema e posteriormente fundaram a Associação Mundial de Psiquiatria Cultural, com a colaboração da ABE. Assim, com os congressos que realizávamos, apoiados pela WPA e outros que colaborávamos, como foi tradicionalmente nossa relação com a ABP, profissionais do mundo inteiro foram estimulados a entender a cultura, não somente como um adorno na sociedade, podendo ela ser considerada como um fenômeno de prevenção da Saúde Mental e restabelecimento social, além de fornecer elementos para compreensão da psicopatologia.


Foram importantes para o aparecimento da Etnopsiquiatria, cuja denominação mais adequada posteriormente entendemos que deveria ser Psiquiatria Cultural, diversos antropólogos como Malinowski, Mead, Benedict, Mauss e Linton, hoje considerados referências clássicas desta área. Do lado da psicologia, além dos ensaios de Freud, Maslow, fascinou-se pela obra “Folkways: a study of the sociological importance of usages, manners, custos, mores, anda morals” de William Graham Sumner, publicado por volta de 1906. Esse autor fez a analise de como o comportamento humano era moldado pelos padrões e normas culturais, hoje, consagrado pela Psiquiatria Cultural. Os estudiosos de Etnopsiquiatria, embora acostumados ao esforço científico de entender a função da cultura e consequentemente da religião sobre o ser humano, reconhecem não haver essa tradição na nossa história. Parecia inconciliável associar religião e razão. Hoje, na psiquiatria, parece consagrado os estudos de como a religião pode afetar positivamente a disposição humana, podendo, além do consolo, colaborar para eficácia de algumas ações reparadoras ou de adaptação. A aproximação da Antropologia com a psicologia foi, gradativamente, trazendo elementos para a compreensão do fenômeno da humanidade recorrer a fé, a ritos e criar mitos constantemente, não importando a época histórica.





Nos debates iniciais que fizemos na década 90, nós etnopsiquiatras, chamávamos a atenção para os Distúrbios Específicos de Cultura, e estudos multicêntricos mostrando diferentes ocorrências dessa enfermidade, em diversos lugares e com diferentes plasticidades. Com a evolução do conhecimento de diversos colegas, trabalhando neste campo considerando os aspectos socioculturais envolvidos com a doença mental, passamos a apresentar propostas práticas de reconhecimento de novas psicopatologias próprias de culturas (trazendo contribuições para o Código Internacional de Doenças) e aprimorando técnicas psicoterápicas, fazendo valer a previsão do professor francês, Bastide, que chegou a lecionar na USP, que um dia teríamos conhecimento e habilidade para lidarmos de forma mais ampla nesta área. Alguns colegas da ABE contribuíram neste setor, destacando as Terapias Comunitárias de Barreto no nordeste, a Perambulante de Sales na Amazônia e a Terapia Social que criei. Desde 2010, com a mudança da diretoria da ABP, os espaços das contribuições sobre a Etnopsiquiatria nos Congressos Brasileiros foram restringidos, com a promessa da criação de novos grupos de estudos, que contemplaria diversas disciplinas, e que nunca veio a se concretizar. No entanto, e recentemente, estudiosos do tema Religião e Psiquiatria foram ocupando os espaços com mesas redondas de grande interesse popular. Embora restringindo à questão apenas sobre a influência da religião, ao invés e de forma mais ampla, considerarem a influência da cultura sobre a doença mental recorreram a trabalhos com dados acadêmicos e com critérios mais fidedignos de evidências. Outro ponto foi o empobrecimento das discussões sobre as condições técnicas e exemplos práticos de trabalhos considerando aspectos socioculturais na etiologia e tratamento das doenças mentais. O próximo Congresso Mundial de Psiquiatria, previsto para Lisboa em 2019, compensará estas lacunas, pois foi aprovada a contribuição dos integrantes da Seção de Psiquiatria Transcultural da WPA e de integrantes da Mundial de Psiquiatria Cultural. Uma das mesas, aprovadas será apresentada em português, e tem como tema principal as Abordagens Socioculturais no Tratamento das Doenças Mentais. Ela será coordenada pelo colega da cidade do Porto, o professor Antônio Pacheco Palha. A brasileira Thames Cornette-Borges, psicoterapeuta transcultural e pesquisadora associada a Universidade de Paris Descartes, da equipe de Rose Marie Moro fará sua contribuição sobre O Cenário Transcultural na Reconstrução da Parentalidade. O padre Rino Bonvini, psiquiatra italiano radicado no nordeste, com amplo trabalho em áreas carentes com seus recursos de Terapia Comunitária e Familiar falará: Abordagem Sistêmica Comunitária: Uma metodologia multidisciplinar para fortalecer as comunidades, abordando as dimensões biopsicossocial-espirituais dos indivíduos. Geraldo Sales, do Pará, criador do movimento integrado em saúde mental, uma espécie de CAPS Perambulante e coordenador do curso de pós-graduação em saúde mental no sul do Pará contará sobre a Terapia Comunitária, como instrumento de Intervenção Psicossocial noNorte do Brasil. E por fim, eu também estarei por lá, falando mais um pouco das Terapias Sociais que pratico por mais de 30 anos em Florianópolis: Abordagem Sociocultural no Tratamento da Doença Mental.


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