Roma

 

   O ano me parece começar bem. Voltamos de um Natal em família, o sol prevaleceu em Florianópolis, encaminhei meu novo livro para a tradutora e além disso, pude ver um belo filme: Roma. Aclamado pela crítica, e fascinante pela forma de capturar as cenas, Alfonso Cuarón, retrata uma família classe média alta num distrito chamado Roma, no México dos anos 70. O mesmo ano onde nos consagramos tricampeões do mundo no Futebol naquele país. Eu era pequeno, mas lembro muito bem do Rivelino, Pelé, Gerson, Jairzinho, e praticamente todo o grupo, que se saindo bem em cada jogo, nos faziam sair de casa, apinhados na parte de trás da Belina do meu tio, com o porta-malas levantado para acomodarmo-nos. Com as imagens do filme num belo preto & branco, eu revi as cenas da minha infância, em Lins, onde meus pais, ambos professores tinham que contar com a colaboração de avós e empregados para dar conta do recado de criar seus filhos. Era um tempo onde brincávamos mais na rua, ouvíamos e contávamos mais histórias. Os novos gêneros de contar história, na era atual, através dos aplicativos e blogs pessoais é diferente. O ritmo agitado de nossa vida, despeja diversos e constantes relatos pela internet, talvez como este que estou fazendo agora, mas sem a criatividade mágica de um escritor, tornam-se autobiografias ou confissões onde o leitor não é levado a acompanhar a essência da vida do protagonista, mas apenas se deparar com um conjunto de informações. O mundo atual, da informação, deixa defasado o antigo, o que já passou. Vale a data mais recente da história publicada. O ritual tradicional, de contar histórias, nas nossas vidas compartilhadas pelas ruas, se perdeu em alguma passagem do tempo para mim, ou desapareceu por completo no ritmo da vida moderna. Que pena! Era um tempo em que o morto era velado em casa, e agora foi substituído por um outro tempo, um novo, em que a morte adquiriu um ar de privacidade, onde o moribundo deixa o hospital e vai direto para o velório, espaço do próprio hospital, ou no cemitério, destinado a recebermos as condolências. Morreu 2018.

   Como psiquiatra, só tenho a opção de refletir sempre, estudar a todo o momento (que é gratificante para mim) para poder me adaptar às constantes mudanças (e hoje velozes) desse mundo. Ocorreu-me, recentemente, mas ainda uma reflexão não passível de ser publicada, que a função de um cérebro saudável, seria, ao invés de arquivar informações, selecioná-las e suspender diversas delas que vão entrando em nós. Esta função nos proporcionaria momentos de serenidade e contato satisfatório com o presente. Nos daria possibilidade de melhor conexão com os amigos, com a brisa e a paisagem ao nosso redor. Nos tirariam das telas digitais e restabeleceria a confiança que devemos depositar em nós mesmos e na vida.

 

Aliás, sobre a confiança, reservei um capítulo à parte, no meu novo livro. Um sentimento importante e ainda injustiçado pela ciência. 

 

 

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