Conexão Bauru


A sensação foi boa. A de viajar pela primeira vez, a trabalho, para a região onde nasci, e participar de um debate com profissionais de saúde mental sobre o tema psicofarmacologia e psicoterapia. Eu cheguei em Bauru, recebido por um tio e uma prima e iniciei o debate no Cinema 1, uma das casas mais sofisticadas do país, sobre automação doméstica, instalação de cinemas em casas e prédios, que pertence a meus primos, gentilmente cedido para o evento. Até o aspirar poeiras nas nossas casas não será o mesmo, depois de conhecer essa loja (fiz propaganda).

Com equipamentos sofisticados e uma platéia atenta, discutimos um tema ainda polêmico, que nos refaz pensar no diagnóstico das psicopatologias e nos incita na aproximação entre médicos prescritores de medicações e psicoterapeutas, a meu ver, muito distantes entre si. Para um país, cujo os eleitores se preparam para decidir nosso futuro, uma sexta de noite falando de psiquiatria, foi um alívio para escaparmos um pouco do assunto político conturbado, e as vezes desagradável de discutir.

Uma querida colega da Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural, ainda quando eu estava embarcando, me enviou um artigo de Reinaldo Azevedo, autor do País dos Petralhas. A intenção dela era para que eu refletisse sobre as minhas convicções políticas. Ele, criticando a direita, alertava que votando no Jair Bolsonaro, correríamos sérios riscos de estarmos reeditando através do voto, um pedido da volta à repressão e à ditadura, como mostra a história com várias personagens do mal, dentre eles os conhecidos Hitler, Mussolini, Perón, Chaves, e Edorgan (este da Turquia, pregando a volta do glorioso império Turco-Otomano). Citou a forma como Fujimori chegou ao poder e a inocência dos peruanos ao elegê-lo. Dizia, o jornalista, que deveríamos aprender com a história. E convenhamos, será que aprendemos alguma coisa com o nosso passado? Em nenhum momento, o referido jornalista, aponta para a real motivação de milhões de brasileiros de querer ser governados com ética e sem corrupção. Para o jornalista, talvez, a questão do crime organizado decidir a gestão do Brasil parece ser irrelevante.

Bauru, ficou conhecida no Brasil, graças a um sanduíche que leva o seu nome e que foi criado por um advogado bauruense no bar Ponto Chic em São Paulo. Isso foi por volta de 1934, quando ele cursava direito na USP. Mas Bauru é terra também do Marciano, destacado agora pela musica de Mayk & Rey, meus amigos sertanejos de Florianópolis: "Canta Mais Uma do Marciano" (fiz outra propaganda)(https://www.youtube.com/watch?v=H0pZrV8qoXA).

Na cidade uma Maria Fumaça, exposta numa praça, me faz sonhar com um Brasil repleto de ferrovias, unindo o vasto território nacional, com segurança e economia de combustível. Este Brasil ainda não aconteceu e as discussões sobre nosso futuro, ainda permanece polarizada e nosso destino indefinido. O jornalista Azevedo, supra citado, sem sequer fazer referência a questão ética, alerta sobre a volta da ditadura, que ao invés de se restringir ao mandato de Castelo Branco, que prometeu que haveria eleições em breve, se estendeu por anos, com a desculpa da ameaça comunista.

O período militar, apesar de ter trazido prosperidade a nação, também teve excessos pela repressão, assassinatos e censura. Depois desse período, os que eram de direita e simpáticos ao poderio militar se retraíram, dando lugar a nós, orgulhosos de combater a ditadura militar. Nós nos entendíamos como mais humanitários e voltados ao social. Agora, depois do desastre ético dos nossos representantes de esquerda, o Partido dos Trabalhadores (PT), somos nós quem estamos nos retraindo. A revolta que toma conta de muitos brasileiros, principalmente dos que, como eu, votaram no PT, foi pela mentira descarada, pela vergonha de nos ter traídos. Para ganharem a eleição, os que se anunciavam como paladinos da ética, compuseram com o PMDB da época (aprendendo ou ensinando a roubar). Manipulando a opinião pública, lançaram uma campanha dizendo que o impedimento da presidente Dilma foi um golpe. Só se estivessem falando de um golpe dos comparsas, que assumiram o poder, através do vice Michel Temer. Será que pensam que irão enganar a todos e por muito tempo? Os de centro, que reúne a maioria dos brasileiros, mesmo com esforço, neste momento parecem apresentar uma tendência em buscar os representantes da ordem, que estão à direita.

Em san consciência, quem desejaria o Comunismo, ou a permanência do Crime Organizado governando nosso país? Quem aprovaria uma corrupção incrustada em diversas instituições públicas, como vem sendo desvendado pela Polícia Federal e o Ministério Público? O que me intriga ainda mais é saber que amigos meus, pessoas que eu admiro, que compartilham comigo as mesmas ideologias humanitárias, estão neste momento, recorrendo à critérios diferentes para a escolha de seus candidatos. Inclusive eles estão pensando o mesmo de mim. Até alguns de nossos ídolos (Chico, Caetano, Martinho de Vila e agora vi também a Daniela Mercury, mas desta é possível entender se verificarem o quanto ela foi agraciada pela Lei Rouanet nos últimos tempos), não estão focando num saneamentos da nossa política, e usando esse critério para fazer suas escolhas de um candidato a presidência. A simpatia do povo brasileiro pelos militares, manifestado ultimamente e com mais intensidade durante a recente greve dos caminhoneiros, não foi porque esquecemo-nos da ditadura, mas as nossas cabeças procuram no passado uma solução para o presente, nostalgicamente. Fizemos isso em plena ditadura, quando o Brasil passava por uma crise, sentindo saudades dos Anos Dourados, época em que Jucelino construiu Brasília. Diante dos impasses da recente república do Brasil, alguns chegaram a manifestar saudades do tempo do império. E agora também em Lins, onde eu me encontro revendo meus amigos de colégio, que sempre repetem como era nossa vida nos tempos de colégio, na década 70. A vida que tínhamos, o respeito aos professores e sobretudo, nossa liberdade, comparado com nossos filhos e netos nos dias atuais.

Em Lins, cidade onde nasci, e de onde agora escrevo, alguns conterrâneos foram presos pelo envolvimento com a corrupção, trabalhando por empresas descobertas pela Lava Jato. Esta semana, mesmo, chegou o mandato de prisão para mais uma personagem importante de minha cidade natal. Será que alguns de meus amigos duvidam dos fatos descobertos? Ou pensam, já que t