O DIA EM QUE CONHECI O TOM JOBIM

07/04/2018

 

 

     A Tereza veio abrir a porta. Sabe a Tereza de Tereza meu amor, aquela música instrumental com arranjo de trombone, trombone do Urbie Green, que nunca teve letra? A Tereza que ainda estava casada com ele? A casa ficava no início de uma ladeirinha que começava ali no canal do Leblon, acho que meio de esquina, quase encostada ao Jóquei e que era parte do Circuito da Gávea.

            Quando eu era pequeno ia com meu pai e meu avô assistir às corridas. A baratinha amarela do Chico Landi, a azul do Froilan González, a verde-garrafa do Stirling Moss e a não sei de que cor do Fangio. Ia dizer também Pintacuda, mas esse eu não vi, é mais antigo. Ferraris, masserattis, mercedes. Eu ficava fascinado e puto ao mesmo tempo porque meu pai era argentino e torcia descaradamente pelo Fangio que, não falhava uma, ganhava todas.

 

            Mais de uma vez caiu um piloto no canal. Também, eles largavam na descida da Marquês de São Vicente com calçamento de paralelepípedos e trilho de bonde, com o pessoal na calçada sem nenhum cordão de isolamento e que atravessava a rua logo que os carros passavam. Não sei como não morria um monte de gente.

            Depois dessa eles entravam a toda na reta do canal antes de subir a Avenida Niemeyer, de um lado o despenhadeiro e o mar, do outro rocha pura, onde é hoje a favela do Vidigal e onde fica a Gruta da Imprensa, davam a volta lá pela Rocinha nas curvas malucas do Trampolim do Diabo. Eu também queria ser o Chico Landi com touca de couro e óculos de aviador, a cara enegrecida pela fumaça dos escapamentos.

            A Tereza abriu a porta, beijou o Son e me cumprimentou. Devia ser 1964 ou 65, por aí. O Son, Edison, era um dos meus grandes amigos e colega de turma. Estávamos no segundo ou terceiro ano da faculdade. A mãe do Son, Dona Edila, tinha comprado aquela escola de Ipanema, Colégio Brasileiro de Almeida, da mãe do Tom, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. O Fabinho, que era ambidestro e que em cinco minutos desenhou e pintou com as duas mãos uma aquarela, Festa de Santana – Búzios, que eu tenho até hoje pendurada na minha sala, tinha uns dezessete anos e era muito amigo do Paulinho, filho da Tereza e do Tom. Resumindo, o Son, que se chamava Edison, era filho do Dr. Edison e da Dona Edila, que tinha comprado o colégio da mãe do Tom, era irmão do Fabinho, amigo do Paulinho, filho do Tom. Son, Tom, sons, inhos, etc e, além disso tudo, uma Nikon.

            Pois é, o Son tinha viajado para a Europa e o Fabinho pediu ao Paulinho a sua Nikon emprestada para, por sua vez, emprestá-la ao Son, que era um apaixonado por fotografia. Na volta, o Son viera devolver a Nikon na casa do Tom pro Paulinho, em nome do Fabinho, e me levou a tiracolo.

            Eu tinha, é claro, uma certa inveja do Son, que entendia de fotografia, fazia aeromodelismo sem deixar cair um pingo de cola fora do lugar e nem um adesivo da força aérea americana torto, pescava e sabia qual a melhor isca e onde procurá-la, dos tamanhos e curvaturas dos anzóis e marcas de molinetes, comia torradinhas com alcaparras e steak tartare, tinha uma coleção de discos de jazz com raridades de Ahmad Jamal e Thelonious Monk, guardava escondido no armário uma garrafa de Dimple, era dono de um fusca vermelho (eu andava a pé ou de ônibus) e namorava uma estagiária de psicologia da PUC meio personagem das crônicas ferinas do Nelson Rodrigues (fui resgatá-la dez anos depois num passeio de bicicleta em Yale, onde estavam vivendo e onde ele fazia pós-graduação em fisiologia renal depois de abandonar a cirurgia). Além disso tudo, passava os fins de semana numa casa no alto de uma colina de Petrópolis, tinha uma irmã tipo mignon chamada Vanessa, danada de simpática (eu não tinha irmãs, só irmãos), um pai nefrologista professor da nossa faculdade, uma mãe pedagoga e diretora de colégio e um bóxer mansinho com cara de bobalhão.

            Eu só tinha os meus livros e a obrigação pesada de cumprir o destino de um descendente de duas famílias de migrantes pobres (italianos, argentinos, uruguaios, portugueses, franceses e negros, um ramo da família  devia ter nascido de uma transa de um pirata do Villegagnon, perdido nas praias do Rio de Janeiro, com alguma escrava do Brasil colonial; uma das minhas bisavós era mulata). Eu também tinha pais maravilhosos, só descobri depois, que não possuíam nem terras nem vira-lata de pelo curto nem título algum, quanto mais diploma na parede, só coração e os antúrios da minha mãe.

            Poucos anos depois, em 1967, eu estava na casa do Son estudando para uma prova de Medicina Tropical, se bem me lembro, quando bateu aquela fome no meio da madrugada. Na cozinha topamos com a Vanessa e a Ana Lúcia, uma amiga e colega dela da Sociologia da PUC, comendo sardinha em lata com pão, também fazendo um intervalo de véspera de prova. Estudavam A ética protestante e o espírito do capitalismo de Max Weber, que elas achavam importantíssimo, um clássico, mas que não deixava de ser um porre. Foi desse jeito que conheci a mulher com quem vim a me casar depois, numa história um tanto A princesa e o plebeu ou A dama e o vagabundo, o que é a mesma coisa com um colorido da Disney.

            Tendo estudado num colégio de elite, eu não tinha bem claro que me preparava de alguma forma para dar um salto na escala social. Eu fui o primeiro da família, dos dois lados, materno e paterno, a entrar numa universidade, acabando por topar com uma menina poliglota, filha de um diplomata que morrera ao ser nomeado embaixador, enquanto esperava a designação para um posto num país distante da Ásia Menor; e que tinha vivido em vários países desde que nascera. Ela tanto estava habituada a tomar o chá das cinco nos jardins do palácio do Xá do Irã com a própria Farah Diba, conversando em inglês e falando um pouco de farsi, quanto a conviver com a Clarice Lispector, amiga da sua mãe do tempo em que os maridos serviam em Washington ou a passear nas praças de Roma, com intermezzo pelas ruas de Assunção, Teerã e Cidade do Cabo em pleno apartheid. Guardava na estante um exemplar de Sagarana com dedicatória de próprio punho do Guimarães Rosa, outro amigo do seu pai dos corredores e salões do Itamarati.

Em casa, nos jantares festivos, comia-se com talheres de prata ingleses, porcelana de Limoges e cristais da Boêmia, embora o prato preferido fosse tutu com torresmo, purê de batata-doce e carne-seca desfiada e a família já não tivesse crédito ilimitado no banco. Ainda por cima era socióloga de esquerda em plena ditadura militar, tímida e desenvolta ao mesmo tempo, o que lhe conferia um charme especial. Feita de encomenda para mim, atendendo a todos os meus sonhos de grandeza e a todas contradições possíveis e imagináveis.

            Com ela aprendi a comer entradas, fondue bourguignonne e profiteroles, a pedir tinto seco com a carne certa e a não me constranger diante do garçom nem diante da conta, a ler Shakespeare no original (que ela lia e traduzia para mim), a admirar as doze pulseirinhas muçulmanas de ouro puro, uma diferente da outra, que ela usava no braço esquerdo, trazidas da velha Pérsia, a curtir o European Concert do Modern Jazz Quartet, Lalo Schifrin e a sua dissecção do passado e o Charles Aznavour (Paris au mois d’août, Que c’est triste Venise)...au temps des amours mortes.

            Na verdade, ela nunca me esfregou na cara essas coisas e com a sua surpreendente simplicidade, elegantíssima até se vestida com um saco de farinha, me ensinou primeiro a paixão, depois o amor e a consciência social que me faltava. Envernizou-me ao mesmo tempo que me vestiu com uma túnica de algodão e sandálias de couro cru. Cheguei a sair pela janela do  Sion puxando-a pela mão, quando os policiais do DOPS invadiram o colégio, interrompendo a aula do curso de alfabetização para favelados pelo Método Paulo Freire de educação popular, ministrado pelos militantes do Partidão, com a benção das freiras, como todo mundo fazia, como programa de impulsionar universitários alienados de classe média a mexerem a bunda  e olhar de frente para os graves problemas brasileiros apontados pelos gurus da política econômica e da história progressista da época.

            Líamos, sem entender direito, para não dizer, nada, a Formação econômica da América Latina do Celso Furtado, o papa do subdesenvolvimento, a Geografia da fome de Josué de Castro, Florestan Fernandes, O libertador, a vida de Simon Bolívar de Moacir Werneck de Castro, o livrinho vermelho de Mao Tse Tung, os poemas vietnamitas de Ho Chi Minh, voz da ideologia vigente e da resistência armada.

            O curioso é que ela idolatrava todos esses pensadores de esquerda, mas quem estava na fila de cumprimentos do nosso casamento era o Roberto Campos, também amigo do seu pai desde Washington e que nós, quando estudantes, chamávamos de Bob Fields pelas pretensas posições pró-americanas, muitas das quais se tornaram proféticas e adotadas no futuro até pelo Lula com seu discurso antiliberal e anti FHC, de quem herdou a política econômica até hoje adotada e sacramentada, fingindo que é ideia dele.

            Na verdade eu achava tudo aquilo deslocado e constrangedor porque conhecia essas coisas do outro lado. Já trabalhava em pronto-socorro e subia favelas e entrava em presídios ameaçadores e celas infectas de delegacias de subúrbios (chiqueirinhos) para atender doentes sem remédio e sem esperança. Eu mesmo, na infância, tinha uma tia-avó viúva e favelada que eu visitava regularmente com minha avó e que me apertava o coração, na hoje extinta Praia do Pinto, pertinho do estádio do Flamengo, onde os barracos avançavam na Lagoa Rodrigo de Freitas como insalubres palafitas, à semelhança de Alagados em Salvador, exalando o fedor insuportável da pobreza, apesar da proteção do Cristo e da Pedra da Gávea num cenário de sonhos. Via nessa politização juvenil mal talhada, típica dos anos 60, um sentimento de culpa escarrado de quem não tinha a menor intimidade com essas coisas e uma postura falsamente condescendente de patrõezinhos que, ainda por cima, tratavam a própria empregada doméstica como uma escrava Isaura para garantir o frescor do seu haddock defumado. De preferência, não esquecendo de reservar algum para financiar uma lua-de-mel em Campos do Jordão regada a manhattans, raclettes, trufas e negronis. Afinal de contas, desigualdades sociais não são parte obrigatória e previsível do nosso dia-a-dia? Pena que o dinheiro tenha mudado de mãos e que hoje o padrão estético predominante seja o sertanejóide do Zezé Di Camargo.

            Sentia nisso tudo uma representação barata. Mas, apesar disso, lá ia eu como namorado apaixonado e protetor, segurando a mão dela nas passeatas, tomando jatos d’água dos brucutus, carros blindados da polícia antitumultos, lenço úmido na cara para se proteger do gás lacrimogêneo. Eu nunca sabia se eu era liberal ou progressista, de tanto medo de ser intelectualmente independente, não engolindo qualquer coisa, dum lado ou do outro, que se tentava enfiar na cabeça e na goela da minha geração, e acabar sendo visto como reacionário ou conservador ou burguês que, aliás, todos somos. Cruz pior não existia. No fundo mesmo, o que eu queria era namorar aquela menina loira de olhos azuis, quase cinzentos, que se dedicou a mim por vários anos e a quem eu acabei traindo numa típica traição de novela das oito. Traí na verdade a mim mesmo e ao meu destino. Bye princesa!

            Nessas passeatas a gente procurava calçar os sapatos mais confortáveis e as meninas os de salto baixo, para fugir mais agilmente dos cassetetes dos soldados. Mesmo assim, era um tal de encontrar nas ruas, no dia seguinte, pés desaparelhados de mocassins perdidos na correria das rotas de fuga, que vou te contar!

            Isso me lembra o jogo Brasil e Paraguai em 69 ou 70 (aquele 1 a 0 suadíssimo), que era o último jogo das eliminatórias para a Copa do Mundo. O Brasil dependia da vitória para ir à Copa, a mesma copa em que ele se consagrou como tricampeão e Pelé voltou ao seu trono de rei. O jogo foi no Maracanã, que só tinha ficado mais lotado na final da Copa de 50 contra o Uruguai (eu estava lá e só me lembro do silêncio absoluto depois do último gol dos rioplatenses, da Celeste).

            Incauto, lá fui eu com a Ana Lúcia (eu já estava casado), com a minha sogra, minha cunhada e uma amiga dela. Fomos de arquibancada e só conseguimos entrar por cima. As quatro de vestido e salto alto. Atenção, vou dizer de novo: salto alto no Maracanã entupido! Não cabia uma agulha. A torcida foi pegando a gente pela bunda e nos fazendo descer como uma onda até aterrissarmos lá no meio, onde, por milagre, um conhecido surgido naquele formigueiro, nos fez estacionar espremidos no colo da torcida nos acomodando contrafeita e de cara feia.

            Mas foi Tereza que abriu a porta naquela tarde em que nada disso tinha acontecido ainda. O próprio Tom separou-se dela depois e também, como eu, casou de novo. Nem me lembro se naquela tarde chovia ou fazia sol. Só sei que era de tarde e que fui apresentado ao maestro, que se dirigiu a mim de um modo simpático, do mesmo jeito como os pais se dirigem aos amigos desconhecidos dos seus filhos. Me lembro que fiquei sentado num cantinho da janela da sala. Eu simplesmente venerava  as músicas dele. Cantava todas. Fiquei lá uns quarenta minutos até o Son resolver ir embora e me arrastar, relutante, evitando sair dali e encerrar aquela tarde.

            O Tom estava ocupado. Atendia um grupo de jovens músicos que tocavam peças barrocas (se não era, me pareceu assim) e que queriam sua opinião e orientação. Tom pegava a sua flauta transversa de cima do seu piano de cauda e ilustrava o que queria dizer com breves frases musicais. Os músicos bebiam as suas palavras e a sua interpretação musical. Conferiam partituras. Tentavam tocar com ele, acompanhá-lo.

            Devia ser verão porque eu me sentia aquecido. Sim, agora me lembro, fazia sol. Fazia-se luz. Ou é porque a memória me enternece. Porque passava na rua a baratinha do Fangio. Porque o mundo ali não precisava de passeatas. Porque minha tia-avó acabou casando com o português dono do botequim da esquina e se mudou para uma casinha modesta em São Cristóvão, com jardim e quintal. Porque tudo aconteceu como aconteceu  ou nada aconteceu como aconteceu naquele dia em que conheci o Tom Jobim. O mundo bem que poderia se resumir àquele pedaço de tarde, de Leblon, de Gávea, de música barroca, de Nikon perpetuando uma fotografia que jamais amarelecesse com o tempo antes de ser devolvida para o Paulinho pela mão do Son.

 

 

OBS: Em 30/9/07 um dos maiores nomes do psicodrama, Sergio Perazzo, publicou este artigo sobre seu contato com um dos maiores nomes da música. Dentre as prosas deste psicodramatista, esta eu pedi licença para reproduzir no BLOG da ABE. Marcos de Noronha

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