Professor Noronha, Meu Pai.

 

Recentemente um texto, atribuído a jornalista e publicitária, Teta Barbosa, viralizou na internet. Seu nome: O Caminho de Volta. Nele, ela se toca de estar indo, com empenho e velocidade para algum lugar. Imagina que lá corre o risco de encontrar uma placa escrita fim. Percebe que pode mudar seu rumo, e com 45 anos, seguir a placa de retorno. Retorno à vida, aos momentos com a família, ao contato com a natureza... Exalta a chuva, que prejudicava o sinal da internet em seu sítio, fazendo com que eles tornavam-se mais presentes no espaço. 

O professor Noronha, como é conhecido em Lins, Estado de São Paulo, completou seus 92 anos este mês. Ele, antes de Teta Barbosa, já havia descoberto essa placa, embora, quando a descobriu, sua idade já era mais avançada do que a da jornalista. Ativo como professor de um Colégio Industrial, e incansável na busca de soluções para problemas corriqueiros domésticos, parecia se divertir, quando enfrentava o desafio de criar equipamentos. Consertava máquinas, resolvia nos sítios os problemas de uma fonte de água, desmontava e montava brinquedos e aparelhos. Alguma coisa quebrou? Leve para o seu Noronha consertar. Encarava tantos desafios de sua família como de parentes e amigos. Comumente recorria ao seu torno mecânico, instalado no fundo de nossa casa, onde lá, podia produzir as peças que necessitava. Inventor, fazendeiro, gestor, durante toda sua vida, como foi para ele, encontrar a placa de retorno e seguí-la? Sempre nos lembrava de que sua vida não foi fácil. Lembrava os dias em que passou fome, sem um tostão no bolso, no período em que morou em São Paulo, seguindo sua ambição de ter uma boa formação na escola e vir a ser alguém na vida. Mas sem o apoio material que não podia ter de seus pais, mesmo assim, foi pra frente, seguindo seu caminho. Claro, também lembrava, que durante uma pescaria, atirou numa Sucuri enorme, prestes a abocanhar a cabeça do tio Mário, salvando-lhe a vida, mas prejudicando um pouco a audição dele. Já formado, com a família constituída, seguia a mesma direção, apoiado pela esposa, minha mãe, também professora. 

Termos noção, de que estes desafios que nos impulsionam para o progresso, é comum e compreensível em diversas sociedades, porém, tem maior significância numa sociedade moderna, pode nos ajudar a medir, até onde eles são compatíveis com a saúde humana. Quanto de nós, nem sequer sabemos da existência da placa de retorno? A busca pelo conhecimento, desde que o Homo é Sapiens, já nos guiava, assim como o amor e o trabalho (lembrando de William Reich, suas citações). Devido ao fato de cairmos em armadilhas ao seguir essa direção do progresso, quando tropeçamos nas nossas ganâncias, nossas ambições desenfreadas, na competitividade sem ética, pensadores e religiosos ganharam espaços pregando, como fez o budismo, o desapego. Por volta de 1882, ao escrever Assim Falou Zaratustra, o desesperado Nietzsche passou um período de rica produtividade fazendo uma linda, hoje clássica, homenagem à vida. Seu tema, ao invés do desapego, era a auto-superação. Onde estará a vida, na placa siga em frente, ou na de retorno? Quais, de nossas atitudes, nos conectariam com o melhor que a vida pode nos oferecer, com 17, 45 ou 92 anos? Sem perder o rumo da estrada eu venho olhando, com mais atenção, para estas placas. E agora na mesma proporção que aprendi sobre a importância dos aspectos socioculturais para a condução dos tratamentos psicoterápicos. 

 

 

 

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