O Nascimento Redescoberto

Ontem em Brasília, os que estiveram presentes no Auditório da Reitoria da UnB e os que puderam assistir ao vivo pelo sistema de TV da instituição, presenciaram um momento histórico.

Depois do protagonista daquele dia, o médico francês Michel Odent, direto da Inglaterra onde vive, com seus 87 anos, fazer sua conferência sobre a evolução da medicina, seus erros e acertos a outorga do título Doutor Honoris Causa honrosamente foi recebido. Na conferência ressaltou a revolução do plástico e sua contribuição para confecção de equipamentos na área médica. Falou também das bactérias, então condenados indiscriminadamente, para ressaltar as funções dos micróbios presentes no canal do parto. Recordou a relação do homem com a água e a curiosa capacidade que possuímos de nadar ao nascermos, e que com o estímulo do neocórtex, perdemos no decorrer de meses após o nascimento esta habilidade. Ressaltou as diferenças entre o cérebro do Homo Sapiens e os demais mamíferos, mas sem estimular nossa arrogância, e nos cegar para o fato de que ainda somos mamíferos e continuaremos sendo.

Da esquerda para a direita, Karen Savio, Thais Barrall, Alberto Guimarães​, Maria Fátima de Sousa, a reitora Márcia Abrahão, Daphne Rattner, Heloisa Lessa, Marcos de Noronha, Ana Cyntia Paulin Baraldi e Maysa Luduvice Gomes.

Numa cerimônia ritualística da Universidade, como manda o protocolo, os discípulos vestiram suas roupas e, sob a condução da autoridade máxima da instituição, a reitora Márcia Abrahão (primeira mulher reitora da UnB)e sob os olhares atentos do homenageado estampado no telão, o título foi concedido. Antes de Odent, outras celebridades receberam a graça, como Albert Sabin, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Nelson Mandela, dentre outros.

Na galeria de fotos de ex-reitores, como Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira dentre outros,

aparece da esquerda para a direita: Thais Barrall, doula, de SP, Marcos de Noronha, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural - SC, Daphne Rattner - presidente da ReHuNa - DF, a Reitora Márcia Abrahão, Heloisa Lessa, enfermeira obstétrica e idealizadora do Instituto Michel Odent - RJ, Ana Cyntia Paulin Baraldi, enfermeira obstétrica do Luz de Candieiro, DF, Profa. Maria Fátima de Sousa, Diretora da Faculdade de Ciências da Saúde

e Alberto Guimarães, presidente do Instituto Michel Odent - SP.

Presentes, dentre as autoridades, estava o médico obstetra Alberto Guimarães, hoje à frente do Instituto Michel Odent (IMO),que embarcou na missão inicial de editar suas obras completas. Missão difícil, pois o incansável Odent não pára. Já lançou cerca de 14 livros, que foram traduzidos em diversos países. Eu fui presenteado com o "Pode a Humanidade Sobreviver à Medicina?", primeira publicação da IMO. A enfermeira e parteira Heloisa Lessa, umas das idealizadoras da criação do Instituto Michel Odent, foi escolhida para receber por ele a homenagem, mas antes fez uma breve retrospectiva da vida profissional do obstetra, que desenvolveu inicialmente, suas habilidades como cirurgião. Heloisa contou que foi na década 60 que ele assumiu, na pequena Pithiviers, na França, a condução de uma maternidade. Suas maiores contribuições para a ciência tem como base essa experiência nesse hospital. Eu pude visitá-lo em 1983 em Pithiviers, pois, quando fazia minha formação em Etnopsiquiatria em Nice, tinha como missão também conhecer o autor que possivelmente podia resolver minhas indagações a respeito do nascimento. Como estudante de medicina na Universidade de Londrina, dávamos assistência também à uma comunidade indígena e era absurdamente diferente o nascimento no HU comparado com o da aldeia. No Paraná, Moysés Parciornik, compartilhava sua experiência na publicação de "O Parto de Cócoras", e eu, na minha empreitada de encontrar publicações havia lido Leboyer e o esgotado livro "Gênese do Homem Ecológico" de Michel Odent. Fiquei fascinado e descobri que ele morava na França e fazia experiências com nascimentos em piscinas. Quando cheguei em Pithiviers, num frio medonho daquela pequena cidade coberta de neve, eu e minha esposa, fomos acolhidos por uma imigrante portuguesa que nos hospedou em sua casa. Conversando com ela que havia parido naquele hospital com o referido médico, fui percebendo, do ponto de vista da parturiente, o porque da impressionante repercução do trabalho de Odent, que atraia mães de outros cantos da Europa, para parir em Pithiviers. Ela contou que já havia se familiarizado com a maternidade no pré-natal, pois se reuniu com outras mães para conversar e cantar numa das salas de acolhimento. Quando foi ter o bebê, sentiu dores sobre o tatame (a mesa de parto, estava abandonada naquele local), acompanhada pelo médico e na presença do marido. Para aclamar as dores, evitando o que seria de praxe uma peridural (anestesia aplicada na parte baixa da coluna da parturiente),ela foi naturalmente para uma piscina ao lado, onde relaxou e teve muito bem seu primeiro filho.

Odent, na época, conforme publicação numa revista científica de renome, The Lancet, registrava 120 partos em piscinas. Presenteou-me com seu, então recente livro "O Renascimento do Parto", que tinha previsão de lançamento em 1984 nos EUA. Anos depois, eu de volta ao Brasil, percebia uma obstetrícia voltada a cirurgia e um movimento ainda frágil de pediatras para a melhoria das condições do parto da mulher brasileira. Neste cenário resolvi contribuir. Localizei Odent, já vivendo na Inglaterra onde criou um banco de dados a respeito do tema, e sugeri publicarmos suas obras no Brasil. Lançamos "A Cientificação do Amor", "O Renascimento do Parto", "Água e Sexualidade" e "A Cesariana". Um movimento chamado REHUNA tomou proporções impulsionado com as repetidas conferências, principalmente de Michel Odent, no país. Hoje, a professora da UnB e também incansável batalhadora para a conscientização dos profissionais de saúde e população, sobre as vantagens da humanização do parto (Odent prefere chamar mamiferização), Daphene Rattner esta à frente da associação. Na cerimônia, como não podia faltar, estavam também presentes

alunos da Universidade, parteiras, enfermeiras, doulas (pessoas incumbidas de acolher as parturientes e criar um ambiente adequado para privilegiar a fisiologia da mulher durante o parto).

A ABE, também não poderia faltar a solenidade, pois reconhecemos que a nossa vida emocional tem momentos importantes influenciados pela gestação e o nascimento. O psiquiatra e também fundador da ABE, Augusto César de Faria, que por 4 anos lecionou na Universidade, aplaudiu o momento. Na foto, um selfie com Marcos de Noronha.

  • Facebook Clean
  • Twitter Clean

Av. Othon Gama d'Eça, 900 - sala 903. Florianópolis SC CEP 88015-240

 Fone: 55 48 33241212