A Sensibilidade Social de um estudioso da Etnopsiquiatria.

Abaixo a carta que acabo de receber de Stephan Oliveira, Professor Adjunto de Neuropsiquiatria Infantil do Departamento Materno-Infantil da Faculdade de Medicina - Universidade Federal Fluminense. Ele também é Médico-psiquiatra do Capsi da linda região de Angra dos Reis . Formado em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora e em psiquiatria pelo Instituto Philippe Pinel-RJ/2003. Stephan tem Mestrado em Psicologia Clínica pela PUC do Rio de Janeiro e Doutorado em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social/UERJ. Pós-doutorando em Psiquiatria e Saúde Mental - IPUB/UFRJ. Suas linhas de pesquisas são: Abordagens plurais na psiquiatria, Etnopsiquiatria, religiosidade e transformações da experiência (healing), neurodiversidade e improvisação musical. Carta abaixo, publicada sem alterações mostrando as identificações do médico e sua espontaneidade.

Em dom, 16 de jul de 2017 às 10:30, Stephan Oliveira <stephanmoliveira@gmail.com> escreveu:

Caríssimo Marcos,

Nesta correria toda, ontem que peguei para ver com mais calma seu livro, Terapia Social. Embora, ainda não o tenha lido todo, pude extrair algumas impressões importantes para mim e despertar o desejo de ler o mesmo por completo.

Achei fantástico os referenciais sobre os quais você baseia sua abordagem, como a etnopsiquiatria, menções às arteterapias bem como a analogia que faz com o psicodrama.

A crítica feita também às abordagens ditas "oficiais", à ciência médica oficial e sua única visão de mundo e do adoecimento psíquico, também é de suma importância para nosso campo, uma vez que, como aprendemos com a própria etnopsiquiatria, há várias possibilidades de se interpretar e de se abordar o sofrimento psíquico, segundo as diversas culturas.

Alías, pelo o que pude ver, sua experiência na Europa, com a etnopsiquiatria na França e com a própria Psiquiatria Democrática, na Itália, deve ter sido ríquissima.

Fiz algumas analogias com a minha prática clínica na psiquiatria.

Trabalho com uma prática plural, enfatizando abordagens não farmacológicas e procurando fazer um uso limitado dos psicofármacos, com a menor dose terapêutica possível e o menor tempo possível.

Dentre estas abordagens, por exemplo, valorizo muito, no encontro com o paciente, sua narrativa, as construções, ou melhor, co-construções de significados acerca de suas próprias experiências de vida, o que a meu ver, possibilita transformações em sua experiência e em suas possibilidades de ação no mundo (healing).

Além disto, como na sua prática, valorizo o vínculo real estabelecido enquanto ferramenta terapêutica e não trabalho com intepretações também, a não ser que sejam óbvias. O trabalho com um Grupo Terapêutico que fiz em Macaé, por exemplo, era feito nos moldes de uma "roda de conversa", como você mesmo coloca em sua experiência prática.

Em Macaé mesmo, desenvolvi por cerca de 2 anos uma Oficina de Música com pacientes com esquizofrenia, e o trabalho era ríquissimo, onde o que menos importava era o diagnóstico. Fazíamos uns 20 minutos de roda de conversa e depois tocávamos músicas (MPB, sertanejo, etc), segundo a ideia da interação musical e da improvisação musical (eu tocava o violão e eles outros instrumentos, de forma livre).

Não sei se lhe falei, que eu saí da prefeitura de Macaé e entrei no concurso da UFF, aqui em Niterói, como professor adjunto de neuropsiquiatria infantil.

Venho desenvolvendo um trabalho que já realizo em Angra há alguns anos, uma Oficina de Música também, só que com crianças, com dificuldades na interação social e na comunicação, na mesma lógica da improvisação e da interação musical.

São experiências e possibilidades que vão muito além das abordagens "oficiais", mainstream", que acabam não dando conta da complexidade do fenômeno do qual tratamos. Assim como na Terapia Social, valorizo as crenças, valores e, de uma forma geral, o contexto sócio-cultural no qual os pacientes estão inseridos, tendo em mente que, em nosso país, há um pluralismo étnico, como você muito bem exemplifica em seu livro.

Quanto à minha pesquisa do pós-doc, relacionada a etnopsiquiatrias, religiosidade e healing, estou na fase final de transcrição das entrevistas. Quando estiver terminando, te dou mais notícias.

Bom, mais uma vez, muito obrigado pelo livro Marcos, e pela disponibilidade.

Como poderia fazer parte de maneira mais efetiva da Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural? Seria um enorme prazer para mim.

Grande abraço,

Stephan

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