A SOMBRA NA MITOLOGIA MUNDIAL

09/03/2014

Há momentos em que nos deparamos conscientemente com características de nossas personalidades que não gostaríamos que viessem à tona. Existem situações, aparentemente fora de controle, em que simplesmente não conseguimos gerir nossos impulsos e agimos da forma chamada “sem pensar”. Além do mais, todo ser humano deseja ter paz, segurança, alegria e amor, mesmo sendo o construtor de sus situações reversas. Essa aparente dualidade reside em um aspecto de nossa psique conhecida como Sombra. É a força de onde brotam nossos instintos mais grotescos. De onde o ser humano desenvolveu o discurso de diversos contos e músicas populares sobre demônios, animais, maldades e muito mais. A sombra é o lado escuro do homem. E o escuro é o símbolo do desconhecido, da impossibilidade e da imobilidade. É o símbolo de um silêncio que pode ser enlouquecedor visto o descontrole ao que poderá surgir. Ao mesmo tempo, Jung nos ajudou a entender que nossas sombras são também os fornecedores de nossos insights, do nascimento de novas possibilidades em meio ao caos, da luz no fim do túnel, da esperança onde não há mais saída. É onde o aparente será desmistificado em aparente do aparente. Mas a sombra se refletirá de igual forma em todos os povos e culturas? Existem estruturas diferenciadas para as sombras no oriente em relação ao ocidente, por exemplo? Cada civilização, cada povo, pensou uma maneira de explicar e entender as sombras, esse aspecto sombrio de nossa mente que traz abaixo toda a construção da persona. Mas vamos citar nesse texto apenas dois exemplos sobre essa interpretação, a filosofia taoísta chinesa e a lenda nórdica de Odin, o Senhor da Vida. Segundo o Taoísmo, a vida é composta por duas polaridades chamadas yin-yang. Cada um desses polos representa um aspecto do ser humano. O feminino e o masculino. O baixo e o alto. O frio e o calor. A fraqueza e a força. E assim somos nós quando nos deparamos com uma situação de pleno medo onde brotará uma força inesperada e vitoriosa que nos permitirá enfrenta-la. Um aspecto importante dessa teoria nos lembra que sempre dentro de um há uma parte do outro. Nesse caso, a sombra se reflete na parte em que há yang dentro do yin. Pois yin, a parte do ser onde há sombra, há noite, escuro, e é o símbolo do repouso e do bloqueio. Porém, não será um bloqueio completo, pois há um certo movimento interno, o yang, que permitirá que a vida nasça e se recrie. No inconsciente coletivo do povo oriental, devido a pensamentos como esse, a impermanência será uma realidade que tornará o aspecto do apego menos pesado, onde a criação de personas se torna menos complexa no sentido de se viver uma fabulação diretamente construída pela sombra. Não há medo da morte. Não há medo do escuro. Não há medo das chamadas emoções destrutivas, como a raiva, pois, assim como a alegria, é parte da personalidade humana. Assim a vida e a morte são a continuação uma da outra. Uma recriação. Um momento de repouso e outro de ação. Dois aspectos da mesma existência. A lenda de Odin, o Senhor da Vida, também nos oferece um amplo estudo sobre a sombra. O povo nórdico, especialmente aqui nos valendo das interpretações dos escandinavos, sempre deram valor a vida espiritual, a ligação do homem com a natureza. Odin, após passar 9 dias pendurado na árvore do conhecimento da vida e da morte, Yggdrasil, percebeu os segredos ocultos na vida e quis ir mais afundo. No entanto para que isso fosse possível, precisaria oferece a Mimir, o Senhor da Sabedoria, algo em troca. Este furou seu olho esquerdo com uma lança e o ofereceu. Passou a receber, após esse ato, os sigilos que se tornarão as runas (de“ru” que significa mistério, sussurro). Os 24 sigilos rúnicos revelam a ligação entre passado, presente e futuro, e Odin se tornou Aquele que possibilita a união desses conhecimentos. Muitos aspectos poderiam ser pensados através dessa lenda, como o lado da agressividade deferida contra si mesmo, a perseverança, as classes de deuses e muito mais. Porém, nos valemos do aspecto primordial das sombras que se refletem nos olhos de Odin. Foi somente através de um momento de sofrimento, ou mesmo através da cegueira, que Odin passou a ver, teve os insights, e recebeu os sigilos que poderiam nortear toda a vida humana. O sofrimento está inserido no aspecto do enfrentamento das sombras em qualquer civilização. Porém, sua intensidade, suas possibilidades e as apropriações que cada cultura faz através da Sombra varia consideravelmente. Assim também variará o nível desse sofrimento, pois, no primeiro caso percebemos a consciência da existência da sombra e sua importância; e no segundo, o autoflagelo (imaginário) necessário para a criação de uma nova realidade. Em conclusão, o sofrimento é variável dependendo da maneira como a sombra se apropriará de suas imagens para a construção ou não de uma persona em cada indivíduo e em cada cultura.

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