Liberais e esquerdas, declínio da democracia e suas ficções.

"Enquanto meio de conservação do indivíduo, o intelecto desenvolve suas forças principais na dissimulação; esta é, com efeito, o meio pelo qual os indivíduos mais fracos, menos robustos, subsistem, na medida em que lhes é recusada a possibilidade de luta pela existência com os cornos ou os dentes do predador. Com o homem esta arte da dissimulação atinge o auge" (Nietzsche. Sobre a verdade e a mentira no sentido extramoral).



A Ciência Política e outros domínios do conhecimento na área das Humanidades criam conceitos, mesmo "categorias", surpreendentemente curiosas. Seus núcleos fundamentais formam uma principiologia e operam, nas práticas sociais, como ficções com maior ou menor capacidade de produzir efeitos. Esses efeitos podem ser os esperados, mas também os absolutamente deletérios.


O que alguns autores de vanguarda colocam como tempo de metamorfoses (Edgard Morin e Ulrich Beck), ou de opacidade quanto à indeterminação do que é causal ou colateral, pois as mutações da complexidade debocham das (i)racionalidades modernas, interpelam grandes intelectuais a pensar fora dos parâmetros das ficções tradicionais (em nome da tríade igualdade, liberdade, fraternidade), cujos parâmetros parecem pouco dizer nos dias atuais, ou dizem muito, sobre seus contrários.


John Rawls nos oferece o famoso "véu da ignorância"; Habermas, uma "razão comunicativa"; Chantal Mouffe, "o político como espaço vazio". São apenas três entre dezenas de autores comprometidos em fazer avançar a democracia, transformando o mundo para melhor. Cada um deles, diferenciados no nível e horizonte intelectual, está refletindo sobre a sociedade moderna, suas fraturas e abismos profundos; mas também suas possibilidades transformativas. Idealizações. Um avanço em termos de certo niilismo tão em voga, quando convergente com o fácil “nada fazer”, típico dos filósofos da renúncia do pensamento e da antipolítica em suas diversas colorações.

Uma questão pode ser apresentada. Não estaríamos presos demais às prédicas kantianas na normatização do agir moral, em contextos adversos e tão absurdos que a própria ideia de racionalização torna-se suspeita, por algum vício derivado de certa ditadura das máximas do Iluminismo, quando este se tornou uma teologia com imenso rastro histórico de terror? Somente idiotas desconhecem ou desdenham as barbáries perpetradas ao longo dos séculos XIX e XX, até os dias atuais, pelos finados socialismos reais e em pleno vapor sob o velho sistema-capital. Somente fanáticos das igrejas ortodoxas de "esquerda" e de "direita” perdem tempo defendendo, como menor genocida, Hitler ou Stálin.