Contradições nossas: tempo de mais Freud e menos Marx.

Karl Marx nasceu em Tréveris, 5 de maio de 1818 e faleceu em Londres, 14 de março de 1883.

Contradições reais do mercado. Caviar, uísque, dinheiro, fama, glamour e ganhos por ser do time "certo" entre os aquinhoados com os "frutos bons" do capitalismo perverso. Eis o seleto elenco dos "progressistas, beneficiários de privilégios de um substrato alto das classes médias (tão odiada por Marilena Chauí, cega desde o Mensalão...) à qual a Revelação e a clarividência permitiram alçar o mirante da autoconsciência absoluta. É o que restou ao campo intelectual em face de uma Universidade que vem renunciando à crítica na medida em que, afinal, atingimos, hu! hu! com Lula e Dilma, o planejado "transformismo". Mas esse casamento das burocracias partidárias com o capital financeiro deu no que deu... frustrando o tesão e o sonho de carcomidos comunistas estilo Zé Dirceu, hoje na condição frustrante e depressiva das viúvas de uma burguesia nacional que não compareceu à noite de núpcias, cedendo a vez ao estupro da barbárie neoliberal. Ao menos agora, talvez, a Universidade tem uma oportunidade de retornar, analisada (isso toma o tempo e o dinheiro que Lacan fixou no mercado, para libertar ou mitigar o sofredor do sofrimento) à crítica social, voltando às suas mais legítimas pugnas contra a sua extinção, já em curso e acelerada no projeto Bolsonaro. Volto aos intelectuais midiáticos. Não me refiro aos de sucesso no modelo de business "auto-ajuda" (Karnal, Cortella, entre outros). Eles souberam, com brilhantismo e esperteza, capitalizar. Ao menos são mais sofisticados e seletivos que o bispo Edir Macedo e o apóstolo Valdemiro, na tentativa de fornecer elementos para elevar a baixo autoestima de uma casta de hyuppies situados no "stress" do mercado e do aparato estatal. Aqui a casta dos artistas, professores, jornalistas, escritores, que também se socorre da "nova filosofia terapêutica", objeto da atenção de J.R. Guzzo no artigo "Incoerência ou hipocrisia", desenvolve uma curiosa organicidade, evidenciada, por exemplo, em outros países* na qual as posições de esquerda, já um tanto confusas sobre o que entendem e e escolhem como réguas para medir o progresso e o retrocesso social, autorepresentando-se na "coerência" com um glorioso passado (luta contra a ditadura/64, apoio (shows, manifestos) a ONGs humanitarias de todos os gêneros), com presente no qual para cada dois brasileiros um é fascista e, sobretudo, com um futuro no qual o bolivarianismo, a estatização e, para os mais crentes, a ditadura do proletariado (afinal, a democracial liberal burguesa é terminal) fazem parte do delirante horizonte emancipatório. Essa vanguarda do atraso (há outras, p. ex.?, aquela do culto ao Deus-Mercado, capaz de tudo mediar rumo à mais plena Justiça Social) costumam "esquecer" assuntos menos heroicos nos quais suas virtudes escafedem-se: o exemplo das propinagens em nome da Lei Rouanet é um deles. Os privilégios de altos quadros do Estado, outro. Uma teta vem sempre acompanhada de outras numa cadela no cio chamada arte e serviços via Estado, por todos nós mantidos ao custo de escorchantes impostos. O modus vivendi da excepcional atriz Fernanda Montenegro não condiz com seu desabafo, tadinha, com as migalhas de incentivos recebidos. Viver na Vieira Souto é condição burguesa ou da alta pequena burguesia, como a minha ao residir em Jurerê Internacional. Por quê é difícil se reconhecer elite e parte da ilha dos apaniguados? Nenhum juízo moral para os que guardam consciência das suas posições sociais. O cinismo está na mixórdia que o caldo cultural da política tradicional produziu, pela incapacidade de compreender, cognitivamente, as respostas reversas do sistema nervoso têm dado como forma instintiva e biológica à auto-preservação: blindando a memória e oferecendo aos indivíduos novas alienações que aliviam os choques, dramas, medos, incertezas, insegurança, a própria sociabilidade. Bolsonaro é o resultado desse quadro. Lula poderá voltar, acalme-se ou apavorem-se, ou outro qualquer. No caso esse retorno ao autoritário na direção ao totalitário não tem mais uma identidade com o fascismo, como o vislumbrou Warter Benjamin há oitenta anos. Walter Benjamin se matou em 1943 fugindo da Gestapo nazista. Não alcançou ler 1984 de Orwell mas provavelmente lhe daria razão quanto a relação transideológica de mentes e estruturas totalitárias. A incoerência e a hipocrisia apontadas por Guzzo podem andar juntas. Contradições vão se desdobrando na Metamorfose** denunciada por Morin e Beck, que estamos a sofrer nestes sombrios tempos. O problema dos incoerentes e hipócritas vai ganhando a dimensão do maucaratismo, se conscientes aqueles intelectuais das implicações de suas posturas públicas quando coladas e "combinadas com a estranha manutenção da paixão pelo velho e embolorado arcaismo, no qual sintetizam ou sincretizam, "dialecticamente", ao discreto charme de "flashes" na mídia (autopromoção piegas combinada com remorsos inconfessáveis), suas atualizações de ingredientes na guerra de narrativas na qual se autovalorizam como os virtuosos históricos da verdadeira moral, superior e sublime, porque escorada nos interesses dos explorados. Daí decorrem os estragos na qual a derrota de 2018 é a ponta do aicebergue. Afinal, se meu time, o Fluminense ou o Coritiba, são os ungidos pelo belo e pelo bom, quaisquer meios são válidos e justificam e podem ser usados. O fake pode deixa de ser um mistake na ética das falsas polarizações permeada de muitas capitalizações...