O DIA EM QUE CONHECI O TOM JOBIM

A Tereza veio abrir a porta. Sabe a Tereza de Tereza meu amor, aquela música instrumental com arranjo de trombone, trombone do Urbie Green, que nunca teve letra? A Tereza que ainda estava casada com ele? A casa ficava no início de uma ladeirinha que começava ali no canal do Leblon, acho que meio de esquina, quase encostada ao Jóquei e que era parte do Circuito da Gávea.

Quando eu era pequeno ia com meu pai e meu avô assistir às corridas. A baratinha amarela do Chico Landi, a azul do Froilan González, a verde-garrafa do Stirling Moss e a não sei de que cor do Fangio. Ia dizer também Pintacuda, mas esse eu não vi, é mais antigo. Ferraris, masserattis, mercedes. Eu ficava fascinado e puto ao mesmo tempo porque meu pai era argentino e torcia descaradamente pelo Fangio que, não falhava uma, ganhava todas.


Mais de uma vez caiu um piloto no canal. Também, eles largavam na descida da Marquês de São Vicente com calçamento de paralelepípedos e trilho de bonde, com o pessoal na calçada sem nenhum cordão de isolamento e que atravessava a rua logo que os carros passavam. Não sei como não morria um monte de gente.

Depois dessa eles entravam a toda na reta do canal antes de subir a Avenida Niemeyer, de um lado o despenhadeiro e o mar, do outro rocha pura, onde é hoje a favela do Vidigal e onde fica a Gruta da Imprensa, davam a volta lá pela Rocinha nas curvas malucas do Trampolim do Diabo. Eu também queria ser o Chico Landi com touca de couro e óculos de aviador, a cara enegrecida pela fumaça dos escapamentos.

A Tereza abriu a porta, beijou o Son e me cumprimentou. Devia ser 1964 ou 65, por aí. O Son, Edison, era um dos meus grandes amigos e colega de turma. Estávamos no segundo ou terceiro ano da faculdade. A mãe do Son, Dona Edila, tinha comprado aquela escola de Ipanema, Colégio Brasileiro de Almeida, da mãe do Tom, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. O Fabinho, que era ambidestro e que em cinco minutos desenhou e pintou com as duas mãos uma aquarela, Festa de Santana – Búzios, que eu tenho até hoje pendurada na minha sala, tinha uns dezessete anos e era muito amigo do Paulinho, filho da Tereza e do Tom. Resumindo, o Son, que se chamava Edison, era filho do Dr. Edison e da Dona Edila, que tinha comprado o colégio da mãe do Tom, era irmão do Fabinho, amigo do Paulinho, filho do Tom. Son, Tom, sons, inhos, etc e, além disso tudo, uma Nikon.

Pois é, o Son tinha viajado para a Europa e o Fabinho pediu ao Paulinho a sua Nikon emprestada para, por sua vez, emprestá-la ao Son, que era um apaixonado por fotografia. Na volta, o Son viera devolver a Nikon na casa do Tom pro Paulinho, em nome do Fabinho, e me levou a tiracolo.

Eu tinha, é claro, uma certa inveja do Son, que entendia de fotografia, fazia aeromodelismo sem deixar cair um pingo de cola fora do lugar e nem um adesivo da força aérea am